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Sunday, March 26, 2006

O Mundo de Sofia


O Mundo de Sofia
Jostein Gaarder
Cia das Letras - 2002

"O Mundo de Sofia" foi um enorme sucesso de vendas nos anos 90. Apesar de já ter sido chamado, pejorativamente, de "Introdução à Filosofia para Meninas", o livro continua vendendo bem até hoje. O sub-título, "Romance da história da filosofia", talvez devesse ser qualificado com "filosofia ocidental", pois o pensamento oriental aparece apenas de raspão nas suas mais de 500 páginas. Esse pequeno lapso apenas repete o vício que nós, ocidentais, temos de considerar a História do Ocidente como sendo a História do Mundo, algo parecido como os americanos chamarem de "World Series" o seu campeonato nacional de baseball.

Isso, entretanto, não significa que o livro saia diminuído. Jostei Gaarder dá uma panorâmica nos principais pensadores ocidentais, desde Tales e Demócrito até Freud com direito a pinceladas sobre os pós-modernistas. A seqüência de nomes é mais ou menos canônica e pode ser encontrada em outras histórias da filosofia. Dos gregos Sócrates, Platão e Aristóteles aos naturalistas modernos Marx, Darwin e Freud, dos racionalistas Descartes, Spinoza e Leibniz aos empíricos Lock e Hume, todos os suspeitos de sempre são apresentados. Na maioria das vezes a ênfase é em algum pensador expressivo mas, em outros casos, o movimento como um todo ou o espírito da época também são abordados de modo esquemático. Ao visitarmos Aristóteles, Kant e Darwin gastamos com eles o tempo que merecem mas passamos mais rapidamente pelo Iluministmo, pelo Barroco e pelo Romantismo.

Se a abrangência de pensadores é grande e o tratamento didático dado às diversas escolas é correto, estes não são, no entanto, os principais méritos de Jostein Gaarder. Antes dele outros já se haviam notabilizado com boas popularizações da história da filosofia, como é o caso de Will Durant e o seu clássico "The Story of Philosophy". Sem dúvida, o ponto forte do Mundo de Sofia é a história paralela que se desenvolve em torno de uma jovem norueguesa que está para completar 15 anos. Assim, enquanto a maioria das histórias da filosofia dirigidas ao público adulto segue mais ou menos o mesmo projeto, o livro de Jostein Gaarder procura entrar no mundo dos jovens e, através de perguntas simples, mostrar que o questionamento filosófico é uma característica inata ao ser humano. A partir daí procura revelar como as melhores mentes do hemisfério ocidental se esforçaram para responder às grandes questões.

A história começa com Sofia recebendo cartas contendo apenas uma pergunta. "Quem é você?" ou "De onde vem o mundo?". Estas cartas, que misteriosamente aparecem em sua caixa de correio, não contêm remetente nem qualquer outra pista sobre sua origem. Em seguida, além delas, aparecem também cartões postais, desta vez endereçados a Hilde Knag, que Sofia não conhece mas a quem, supostamente, deveria encaminhá-los. Aos poucos as cartas são substituídas por envelopes maiores contendo lições datilografadas sobre filosofia. À medida que vamos tomando conhecimento dos gregos e seu modo de pensar, vai crescendo o mistério sobre a origem das cartas e dos postais bem como sobre a identidade de Hilde. Esse formato poderia ser desenvolvido até o fim do livro onde então se resolveria o mistério. Contudo, Jostein Gaarder é mais criativo e guarda muitas surpresas para os leitores. Com um certo receio de revelar mais do que o necessário sobre a trama, podemos dizer que o autor lança mão do recurso da narrativa dentro da narrativa, o que acrescenta um elemento de desconforto à questão "O que é a realidade?". A partir daqui o livro se desenvolve em três planos, Sofia, Hilde e as lições de filosofia propriamente ditas, todos se entrelaçando e criando tensões entre si. Essas tensões e os mistérios são resolvidos habilmente pelo autor, que criou um final mais poético do que filosófico.

A idéia geral do formato de "O Mundo de Sofia", a de contar a história da filosofia entrelaçada com uma história de fundo juvenil, parece ser muito eficaz e gerou seguidores. "A Viagem de Théo", de Catherine Clement, conta a história das religiões também alcançou um relativo sucesso. Já "O Teorema do Papagaio", de Denis Guedj, tenta fazer algo semelhante com a matemática, mas não vendeu tanto. Sem entrarmos no mérito de cada escritor, parece que esses resultados de venda estão bem de acordo com a percepção que se tem dos temas. A filosofia, por ser de interesse universal viria de fato em primeiro lugar, seguida de questões religiosas e místicas, tendo a matemática um discreto último lugar. Embora saibamos que a matemática, assim como todo o pensamento científico, dê margem para interessantes questões filosóficas.

Curiosamente, parece que o público alvo que o autor tinha em mente, justamente jovens por volta dos 15 anos, não é exatamente o público comprador brasileiro. Não se sabe se os 15 anos que nos separam da publicação original do livro têm alguma importância na mudança da mentalidade juvenil ou se os jovens noruegueses são diferentes dos tropicais mas o fato é que relativamente poucos jovens se aventuram por conta própria na leitura deste livro. Seja pelo grande número de páginas, seja pelo tema, considerado muito abstrato, o Mundo de Sofia, mesmo quando recebido de presente, acaba numa estante sem nunca ter sido aberto ou apenas com os primeiros capítulos lidos. São adultos, de variadas faixas etárias, que geralmente compram, lêem e fazem o sucesso do livro. Este fenômeno parece colocar "O Mundo de Sofia" ao lado de outros livros de grande popularidade, como "O Pequeno Príncipe" e "Fernão Capelo Gaivota", que discorrem sobre temas importantes mas, por usarem uma linguagem e uma abordagem juvenis, carregam o estigma de serem menores e não indicados para pessoas cultas. Muitos adultos sisudos serão incapazes de admitir que gostaram ou sequer que leram algum desses livros! A bem da verdade, o conteúdo de "O Mundo de Sofia" é bastante mais profundo do que o dos outros citados, o que, de certa forma, serve para nos libertar do sentimento de culpa e nos permitir dizer ao final da leitura: gostei!

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