Cartas a um Jovem Escritor

Cartas a um Jovem Escritor
Mario Vargas Llosa
Editora Campus/Elsevier - 2006
Ler e escrever são duas faces da mesma moeda. Talvez não exista relação simbiótica mais perfeita. A fama de bons escritores desperta a curiosidade de novos leitores e a leitura de bons textos incentiva leitores a se tornarem escritores. É certo que todo leitor já se imaginou algum dia como escritor mas apenas poucos, pouquíssimos, conseguem inverter a situação e passar de consumidores a produtores de textos. O que faz então com que um leitor se eleve ao posto de escritor? Escrever é uma habilidade inata ou pode ser desenvolvida com a prática? É possível ser um escritor diletante, de fim de semana, ou a atividade exige dedicação integral? Essas perguntas, entre outras, são o ponto de partida desse delicioso livro, onde Mario Vargas Llosa procura decifrar o oficio de escrever.
Organizado como uma série de cartas endereçadas a um jovem leitor que gostaria de se tornar escritor porém se vê cercado de dúvidas, o livro abrange diversos aspectos do fazer literário. Em primeiro lugar está a questão da vocação. Respondendo à questão acima, Vargas Llosa acredita que, na maioria das vezes, a habilidade literária não nasce com a pessoa, ao contrário, se desenvolve gradualmente. Como exemplo cita Gustave Flaubert, cujos textos iniciais não permitem vislumbrar o genial futuro autor de "Madame Bovary" e de "A Educação Sentimental". A maestria foi obtida de forma penosa pelo lento aperfeiçoamento da técnica. De certa forma o nosso Machado de Assis talvez se encaixe neste perfil, cujos romances finais são incomparavelmente superiores aos iniciais. O importante, ensina Llosa, é que o futuro autor seja arrabatado de corpo e alma, preferencialmente na juventude, pela febre de escrever. E compara essa força àquela exercida por um parasita que se instala nas entranhas de uma pessoa e extrai dela toda a essência vital, passando esta a viver em função daquela. A figura é forte e elimina desde cedo os "meio-escritores".
A maior parte do livro se concentra em aspectos mais concretos do que a simples discussão filosófica sobre a origem da vocação. Partindo do princípio de que um bom romance é aquele de grande poder de persuasão, isto é, onde as ações se desenvolvem naturalmente devido à uma perfeita consistência interna, sem nenhuma imposição externa, Llosa discorre sobre os diversos elementos que podem ser usados para conseguir este objetivo. Sua tese, aparentemente compartilhada por outros grandes escritores, como o já citado Flaubert, é de que forma (a ordem narrativa) e conteúdo (o tema) são inseparáveis. Uma boa estória, portanto, ditaria a forma como deve ser narrada e o uso de outra forma a tornaria mais fraca. Cabe ao (bom) escritor escolher a combinação perfeita que consiga causar no leitor aquela desejável ilusão de plausibilidade.
Embora não seja um manual prático de como se tornar um escritor, o livro de Vargas Llosa é bastante didático. Apesar disso não peca por adotar um tom formal ou por destilar pedantismo, pecado que acomete muitos autores acadêmicos. Por meio de suas cartas o autor estabelece uma conversa franca e agradável com o leitor. A todo momento podemos sentir sua paixão pela literatura e pelo ato de escrever, o que nos contagia e estimula a querer seguir o seu caminho. Sua vasta memória literária nos brinda com inúmeras citações que ilustram seus pontos de vista de forma discreta e gentil. "Você provavelmente já sabe que..." ou "Você certamente se lembra daquela passagem em que..." são fórmulas utilizadas pelo autor para lançar idéias sem fazer o leitor parecer diminuído por desconhecê-las.
Alçado à categoria de grande autor latino-americano por sua bela obra de ficção, Mario Vargas Llosa conseguiu com "Cartas a um Jovem Escritor" sair da sombra dos seus personagens e dialogar diretamente com seus leitores, ávidos por conhecer seus métodos e técnicas. Ótimo livro para os admiradores do escritor mas especialmente indicado para os escritores em potencial que se encontram adormecidos na forma de leitores.

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