Leio, logo existo!

Saturday, November 25, 2006

The Fabric of Reality


The Fabric of Reality
David Deutsch
Penguin Books - 1997

O que é a Realidade? Filósofos e cientistas de todas as eras têm se debruçado sobre essa questão e outras correlatas. A mente humana é capaz de compreender a natureza da realidade física? Ou seria a realidade tão complexa que esse conhecimento estaria para sempre vedado ao nosso entendimento? Animais apresentam variados graus de inteligência mas embora golfinhos e chimpanzés estejam entre os mais inteligentes, parece improvável que algum dia consigamos ensinar mecânica quântica a eles. Como ter certeza de que nossas mentes não têm semelhantes limitações e que poderemos, eventualmente, um dia, compreender tudo o que pode ser compreendido?

Os cientistas, e os físicos em particular, são geralmente otimistas a esse respeito. David Deutsch em "The Fabric of Reality" desenvolve a fascinante tese de que não apenas isso é possível como seria determinado pelas próprias leis da Física! Sua abordagem difere da de outros autores ao não se basear unicamente na Física. Deutsch acredita que, para ser compreendida, a textura da realidade deve ser estudada através dos quatro "fios" ou "meadas" que a compõem: a mecânica quântica, a teoria da evolução, a epistemologia e a teoria da computação. Embora a visão reducionista da maioria dos físicos os faça acreditar que com a mecânica quântica, ou mais recentemente com a teoria das cordas, seja possível explicar tudo o que existe, David Deutsch pensa que somente com o apoio sinergístico dos outros três fios seja possível construir uma verdadeira e abrangente "Teoria de Tudo".

"The Fabric of Reality" é um livro fascinante, rico em idéias instigantes. Em cada capítulo, quase em cada página, pode-se encontrar um argumento inesperado, uma nova forma de encarar um fato já conhecido ou uma explicação desconcertante sobre algo que desconhecíamos. Entretanto, acima de tudo, o autor é corajoso em expor e defender claramente suas teses não convencionais. Como ele próprio afirma, o livro não é uma tentativa de convencer o leitor de que os quatro fios mencionados sejam verdadeiros. Isso é ponto passivo e aceito por todos que tenham tido um mínimo de educação científica. A coragem do autor se mostra ao propor que essas quatro teorias sejam verdadeiramente a base da realidade e devam ser tomadas em sua plenitude, com todas as conseqüências que possam trazer, e não em versões destiladas ou aplicáveis apenas em domínios limitados.

Embora Deutsch dedique bastante espaço a todas as quatro teorias, talvez a idéia básica de sua cosmovisão e aquela pela qual o livro se tornou associado, é a dos "múltipos universos" ou "multiversos" ("multiverses" em inglês). Segundo o autor, os multiversos são a explicação natural para o fenômeno da interferência quântica que se manifesta na famosa experiência da dupla fenda. Quando fótons individuais parecem misteriosamente se dividir em dois ou interferir com eles próprios, segundo Deutsch, o que acontece é que eles estão interagindo e sofrendo interferência com fótons de outros universos. Somos capazes de presenciar apenas um desses universos porém uma infinidade de outros universos existiriam e seriam tão reais quanto o nosso. A cada escolha nosso universo se bifurcaria e enquanto presenciamos apenas um dos resultados estatísticamente possíveis, outros resultados aconteceriam paralelamente em outros universos. O autor acredita que a mecânica quântica vem tentando nos dizer isso desde que foi descoberta, no início do século XX, mas não tivemos a coragem para aceitá-la como ela verdadeiramente é.

David Deutsch é um forte proponente dos "multiversos" mas não foi o inventor dessa tese. Ela foi proposta pela primeira vez em 1957 por Hugh Everett a quem o livro é, em parte, dedicado. Além de Everett, que idealizou uma nova interpretação da mecânica quântica, a dedicatória se estende a três outros pesquisadores, pela importância que tiveram na compreensão plena em cada um dos respectivos fios que compõem a realidade: Richard Dawkins pela defesa eloqüente da biologia evolutiva moderna, Alan Turing pelo entendimento profundo do que seja a computação e Karl Popper por proporcionar uma visão clara do conhecimento e do método científico em geral.

"The Fabric of Reality" é um livro dos mais interessantes e que irá agradar a toda pessoa curiosa sobre cosmologia e física sendo também recomendado àqueles de inclinação mais filosófica. A prova de sua grande dimensão é o frescor que ainda guarda após dez anos de seu lançamento. Nas novas edições não foi necessário acrescentar apêndices ou rescrever capítulos. Nenhuma idéia parece antiquada face os recentes avanços da ciência e os argumentos continuam igualmente convincentes. No entanto, David Deutsch permanece uma voz um tanto dissonoante no mundo acadêmico. Só o tempo dirá se suas brilhantes idéias se confirmarão ou se mostrarão inadequadas para explicar a realidade física.

Saturday, October 07, 2006

The Elegant Universe


The Elegant Universe
Brian Greene
Vintage Books - 2003

Desde tempos imemoriais o homem tenta explicar o mundo ao seu redor. Tudo leva a crer que as primeiras tentativas foram empreendidas por meio da criação de mitos. Em diversos mitos primitivos os elementos da natureza eram humanizados e explicados pelas ações e sentimentos de personagens que os representavam. Se era difícil entender as causas naturais dos raios, da chuva e dos ventos, por exemplo, era mais simples aceitar que esses fenômenos fossem resultado dos estados de ânimo dos seus guardiões ou conseqüência de contendas entre eles. Os raios eram lançados à terra em momentos de cólera de alguma entidade celeste e os ventos eram soprados por algum ser volúvel mas de grande poder. Estórias criadas em torno desses seres imaginários, os mitos explicavam não apenas os fenômenos climáticos mas também a criação do homem, dos animais, enfim, da própria Terra e de todo o Universo.

Com o tempo os mitos evoluíram naturalmente para as religiões. Primeiramente as pagãs, onde cada ser ou entidade que representava um elemento da natureza passou a ser um deus com personalidade e vontade próprias. Num estágio posterior estas foram substituídas pelas grandes religiões que existem até os dias de hoje. Em particular, nas chamadas religiões monoteístas, o elenco dos deuses da natureza foi susbstituído por um Deus único, infinitamente poderoso, que teria criado o Universo e todos os seres que o habitam num ato voluntarioso que dispensa explicações. Segundo a perspectiva religiosa, tudo o que parece incompreensível ao ser humano pode ser explicado, em última análise, pela vontade divina.

Entretanto, as explicações míticas e religiosas foram sempre insuficientes para algumas pessoas. Observadores atentos cedo perceberam que a natureza está repleta de regularidades. Dia e noite sempre se alternam e as estações do ano se sucedem previsivelmente. Objetos largados de uma certa algura caem invariavelmente para a terra e nunca de outro modo. A observação dessas regularidades foi pouco a pouco criando a noção de que a natureza é compreensível e pode ser explicada sem necessidade de se recorrer a expedientes metafísicos. A lenta evolução dessa idéia culminou no que hoje se chama de Ciência e que tem se mostrado a ferramenta mais poderosa que a humanidade jamais teve ao seu dispor.

"The Elegant Universe" fornece uma panorâmica para o leitor leigo de como a Ciência do fim do século XX e início do século XXI tenta explicar os componentes básicos da natureza, a partir dos quais tudo mais pode ser entendido. A busca por teorias fundamentais capazes de abranger todos os fenômenos físicos ganhou grande destaque a partir da década de 1980 quando foi criado o termo "Teoria de Tudo" (TOE - "Theory of Everything"). A ambição de poder descobrir tais leis fundamentais se baseia na crença reducionista, segundo a qual, para se conhecer um objeto é necessário e suficiente conhecer os seus componentes e como eles se relacionam. Embora exista uma corrente crescente de cientistas descontentes com a aplicação cega do reducionismo (ver "A Different Universe" de Robert Laughlin), a maioria deles, senão a totalidade, concorda que este princípio tenha sido o motor propulsor da Física até os dias de hoje e não deve ser desprezado. O resultado desse processo é que temos uma visão em camadas da matéria. Substâncias químicas são formadas por moléculas, que são agrupamentos de átomos, por sua vez são formados por elétrons, prótons e nêutrons. No núcleo, prótons e nêutrons são formados por quaks. Finalmente, na camada mais básica, elétrons e quarks seriam apenas cordas vibrando em espaços multidimensionais.

Brian Greene se esforçou para escrever um livro que pudesse ser entendido por não especialistas mas que tivesse algum interesse também para cientistas de outras áreas que desejassem um resumo atualizado sobre os mais recentes avanços da Física. O resultado é um livro sem nenhuma fórmula matemática (cf. com "The Road to Reality" de Roger Penrose) e repleto de analogias com o cotidiano que facilitam a sua compreensão. De um modo geral Greene é habilidoso ao lançar mão dessas analogias e elas são esclarecedoras. Contudo, esse expediente é usado talvez em demasia e, em alguns casos, poderia ter sido dispensado pois acaba insultando a inteligência do leitor. A parte inicial de "Elegant Universe" apresenta o contexto da física no século XX e sua leitura segue fluida sem problemas. A partir da parte III, onde a Teoria das Cordas é apresentada, o nível de atenção na leitura deve ser redobrado pois tanto a necessidade de abstração como a quantidade de informação aumentam grandemente. A apresentação é simplificada mas o material é complexo e Greene não foge do compromisso de tentar explicar todas a idéias importantes. Finalmente, para os leitores mais familiarizados com matemática e física, há um grande número de notas explicativas no fim do volume onde mais detalhes podem ser encontrados sobre diversas passagens.

Como é sabido, os dois pilares da física do século XX são a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade. Ambas surgidas nas primeiras décadas do século, essas duas teorias causaram profundas revoluções no modo de se encarar a realidade física. Sua importância é provavelmente maior que aquela causada pela mudança de perspectiva resultante da substituição do geocentrismo pelo heliocentrismo no século XVI. Ambas vêm resistindo bravamente a todos os testes que os cientistas têm sido capazes de idealizar para verificar a sua veracidade. Ambas fornecem previsões numéricas precisas para inúmeros fenômenos. A Mecânica Quântica, em particular, é capaz de calcular certos parâmetros do elétron que estão de acordo com valores experimentais em 1 parte por bilhão, o que é uma precisão assombrosa! Entretanto, apesar de todo esse sucesso, essas teorias escondem um sério problema. Na maior parte do século XX, embora os físicos estivessem cientes dele, preferiram ignorá-lo e concentrar seus esforços no aperfeiçoamento das teorias. O problema é que elas são incompatíveis entre si.

A Mecânica Quântica se aplica ao domínio microscópico das partículas sub-atômicas enquanto que a Teoria da Relatividade se aplica ao domínio astronômico das estrelas e galáxias. A disparidade entre essas escalas é tamanha que, a princípio, parece não haver possibilidade de conflito entre elas. De fato, talvez para a grande maioria dos fenômenos físicos, aplica-se apenas uma das teorias pois a outra não traria nenhuma contribuição. Contudo, em certos casos especiais é preciso utilizar ambas simultaneamente. Essas situações extremas são o interior dos buracos negros e os instantes que sucederam o Big Bang. Em ambos os casos estamos lidando com dimensões minúsculas, o domínio da Mecânica Quântica, e massas enormes, o domínio da Teoria da Relatividade, porém elas são incapazes de produzir previsões consistentes. Uma teoria que pretende explicar a natureza deve ter aplicação geral e não apenas restrita a certos casos. É o que os cientistas entdendem por "elegância". Uma teoria é tão mais elegante quanto mais básica e mais abrangente for. A busca por uma "Teoria Quântica da Gravidade", incorporando elementos de ambas, tornou-se o Santo Graal da Física no fim do século XX. A Teoria das Cordas é, provavelmente, a teoria com maior potencial de sucesso nessa empreitada.

Brian Greene é ele próprio um forte proponente da Teoria das Cordas e procurou fazer um relato não apenas como testemunha mas principalmente como participante ativo no seu desenvolvimento. Albert Einstein foi talvez o último grande cientista solitário a dar importantes contribuições científicas. De lá para cá, a Física vem se tornando cada vez mais um empreendimento cooperativo onde grupos de dezenas e, às vezes, centenas de cientistas colaboram no ataque a certos problemas. Portanto é impraticável dar crédito a todos eles no livro, mas Greene faz um trabalho justo na mediada do possível, dando nomes a todos os que deram as principais contribuições à Teoria das Cordas nos útlimos anos e em especial àqueles que trabalharam com ele. Tendo Greene participado de importantes descobertas, é natural elas sejam citadas no seu próprio livro. Por exemplo, a descoberta das simetrias espelhadas, onde duas formas Calabi-Yau podem dar origem a propriedades físicas idênticas é relatada com bastante detalhe. Da mesma forma, desenvolvimentos dessa idéia como os colapsos de esferas 2d e 3d que podem causar a ruptura do tecido do espaço-tempo sem levar a catástrofes físicas têm o seu espaço garantido. Como o livro se propõe a ser um relato geral sobre o desenvolvimento da Teoria das Cordas e não apenas sobre o seu próprio trabalho, às vezes soam um pouco como exibicionismo tantas referências às suas descobertas, ainda que Greene se empenhe em manter um perfil baixo e valorizar a participação dos parceiros.

É possível que a leitura de "The Elegant Universe" cause um grande impacto no leitor e que faça parecer que a Teoria das Cordas é, de fato, a tão procurada Teoria de Tudo. Pode ser que, como acredita Greene, este seja mesmo o caso. De qualquer forma, há ainda muito terreno a percorrer antes que ela assuma o mesmo grau de confiança que a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade. Até o momento, e após mais de duas décadas de intensas pesquisas, a Teoria das Cordas ainda não foi capaz de fazer previsões que pudessem ser comprovadas experimentalmente. De fato, o seu domínio é tão incrivelmente diminuto que isso talvez nunca seja possível. Esse distanciamento da verificação experimental tem sido alvo da crítica de alguns cientistas (ver "Not Even Wrong" de Peter Woit e "The Trouble With Physics" de Lee Smolin) que acreditam que a Teoria das Cordas seja mais uma filosofia matemática ou um mito moderno do que Ciência propriamente dita. Qualquer que seja o veredito final, "The Elegant Universe" é um livro elegante, honesto e que apresenta idéias incrivelmente interessantes.

Saturday, September 02, 2006

Auto-de-fé


Auto-de-fé
Elias Canetti
Cosac Naify - 2004

Elias Canetti é principalmente conhecido por sua trilogia autobiográfica: "A Língua Absolvida", "Uma Luz em meu Ouvido" e "O Jogo dos Olhos". A leitura desta interessante narrativa, que abrange o período de 1905 a 1937, é agradável e revela o paradoxo de um humanista entusiasmado porém descrente da humanidade. Interessado não apenas na literatura, dedicou anos de pesquisa às massas populares, culminando na publicação do estudo "Massa e Poder" em 1960, que lhe granjeou enorme fama. Canetti possuía inúmeros talentos e escreveu peças teatrais, ensaios sobre literatura, história, antropologia e filosofia. Em 1981 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura pelo poder de suas idéias e pela admirável abrangência de seu pensamento.

Entretanto, poucas obras de ficção brotaram de sua pena, sendo "Auto-de-fé" seu único romance. Desde o seu aparecimento em 1935 até os dias de hoje, a leitura deste longo livro tem provocado duras críticas e quase sempre uma sensação de estranhamento. Especialmente os leitores de seus ensaios autobiográficos terão dificuldade em relacionar a imagem do intelectual perspicaz de "O Jogo dos Olhos" com Kien, o protagonista de "Auto-de-fé". Se os personagens desprezíveis e seus relacionamentos mesquinhos já provocavam desconforto na Europa do entre guerras, a nós, em outro hemisfério e no início do século XXI, causam ainda mais estranheza.

Em essência, "Auto-de-fé" conta a história do dr. Peter Kien, um erudito sinólogo que vive isolado do mundo em seu universo de estudos e livros e de como, ao fim e ao cabo, esse mundo que ele ignora o condena à morte numa fogueira da Inquisição. A narrativa é dividida em três partes. Na primeira, "Uma cabeça sem mundo", ficamos conhecendo Kien, a cabeça, o estereótipo do estudioso sisudo, possuidor de uma vasta biblioteca que mora sozinho em seu apartamento em Viena. Logo na abertura, quando Kien conversa com um inteligente menino de nove anos que se interessa por caracteres chineses, temos a impressão de que o personagem será o alter ego do autor, ele próprio um sábio e poliglota. Entretanto, rapidamente a ilusão se desfaz, ao percebermos a desconexão do personagem com o mundo real em razão de sua dedicação integral aos manuscritos da China antiga. Kien contrata uma governanta para ajudá-lo na lida doméstica e, devido à sua total ingenuidade e inabilidade no trato com as pessoas, acaba se casando com ela, o que se tornará o seu pior pesadelo. Sua esposa/governanta é descrita como o seu oposto. Inculta e tagarela, dedica-se apenas a tramar a extorsão da fortuna do marido, que acredita ser imensa, mas que, na verdade, já foi dilapidada ao longo dos anos para abastecer a imensa biblioteca. Esse tipo de situação sem dúvida se presta a alguma comicidade, mas no entanto, para Canetti o importante é a atmosfera de irrealidade, quase loucura dos personagens.

Expulso do próprio apartamento pela esposa, Kien encontra na segunda parte "O mundo sem cabeça". Aqui, guiado por um anão corcunda que passa a ser seu ajudante, Kien finalmente trava contato com o mundo real. Uma galeria de personagens mesquinhos, sórdidos ou simplesmente vazios cruza o seu caminho e, pouco a pouco, ele vai se transformando num farrapo humano, desprovido de vontade e ação. A terceira parte, "Um mundo na cabeça" promete a salvação de Kien através da síntese ou do equilíbrio entre o mundo mental e o mundo físico. O salvador é seu irmão, um renomado psiquiatra em Paris que, apesar de viver no mundo psíquico de seus pacientes, é também um homem prático que sabe lidar com as dificuldades e armadilhas da vida real. As pessoas que, para o professor sinólogo se mostram como déspotas e opressoras, para o psiquiatra são como os pacientes com os quais está acostumado a lidar no seu manicômio. Assim, resolvendo um problema após o outro, o irmão consegue devolver a Kien seu apartamento, sua liberdade de trabalho, enfim, sua dignidade e pode voltar a Paris com a sensação do dever cumprido. Entretanto, o sucesso é apenas superficial e Kien não consegue escapar ao seu destino na fogueira.

"Auto-de-fé" é um livro denso, repleto de significados, que uma leitura rápida não é capaz de revelar. Canetti escreve com um estilo limpo e preciso mas isso não ajuda a leitura. Vencer suas mais de quinhentas páginas não é tarefa fácil e requer determinação. Contudo, ao fechar o livro sentimos que estamos um tanto mais próximos de perceber as diversas possibilidades da consciência humana e de como é tênue aquela fronteira entre loucura e sanidade. Caso Canetti tivesse escrito uma quarta parte para o livro, ela bem poderia se chamar "Muitos mundos na cabeça".

Tuesday, August 22, 2006

Cartas a um Jovem Escritor


Cartas a um Jovem Escritor
Mario Vargas Llosa
Editora Campus/Elsevier - 2006

Ler e escrever são duas faces da mesma moeda. Talvez não exista relação simbiótica mais perfeita. A fama de bons escritores desperta a curiosidade de novos leitores e a leitura de bons textos incentiva leitores a se tornarem escritores. É certo que todo leitor já se imaginou algum dia como escritor mas apenas poucos, pouquíssimos, conseguem inverter a situação e passar de consumidores a produtores de textos. O que faz então com que um leitor se eleve ao posto de escritor? Escrever é uma habilidade inata ou pode ser desenvolvida com a prática? É possível ser um escritor diletante, de fim de semana, ou a atividade exige dedicação integral? Essas perguntas, entre outras, são o ponto de partida desse delicioso livro, onde Mario Vargas Llosa procura decifrar o oficio de escrever.

Organizado como uma série de cartas endereçadas a um jovem leitor que gostaria de se tornar escritor porém se vê cercado de dúvidas, o livro abrange diversos aspectos do fazer literário. Em primeiro lugar está a questão da vocação. Respondendo à questão acima, Vargas Llosa acredita que, na maioria das vezes, a habilidade literária não nasce com a pessoa, ao contrário, se desenvolve gradualmente. Como exemplo cita Gustave Flaubert, cujos textos iniciais não permitem vislumbrar o genial futuro autor de "Madame Bovary" e de "A Educação Sentimental". A maestria foi obtida de forma penosa pelo lento aperfeiçoamento da técnica. De certa forma o nosso Machado de Assis talvez se encaixe neste perfil, cujos romances finais são incomparavelmente superiores aos iniciais. O importante, ensina Llosa, é que o futuro autor seja arrabatado de corpo e alma, preferencialmente na juventude, pela febre de escrever. E compara essa força àquela exercida por um parasita que se instala nas entranhas de uma pessoa e extrai dela toda a essência vital, passando esta a viver em função daquela. A figura é forte e elimina desde cedo os "meio-escritores".

A maior parte do livro se concentra em aspectos mais concretos do que a simples discussão filosófica sobre a origem da vocação. Partindo do princípio de que um bom romance é aquele de grande poder de persuasão, isto é, onde as ações se desenvolvem naturalmente devido à uma perfeita consistência interna, sem nenhuma imposição externa, Llosa discorre sobre os diversos elementos que podem ser usados para conseguir este objetivo. Sua tese, aparentemente compartilhada por outros grandes escritores, como o já citado Flaubert, é de que forma (a ordem narrativa) e conteúdo (o tema) são inseparáveis. Uma boa estória, portanto, ditaria a forma como deve ser narrada e o uso de outra forma a tornaria mais fraca. Cabe ao (bom) escritor escolher a combinação perfeita que consiga causar no leitor aquela desejável ilusão de plausibilidade.

Embora não seja um manual prático de como se tornar um escritor, o livro de Vargas Llosa é bastante didático. Apesar disso não peca por adotar um tom formal ou por destilar pedantismo, pecado que acomete muitos autores acadêmicos. Por meio de suas cartas o autor estabelece uma conversa franca e agradável com o leitor. A todo momento podemos sentir sua paixão pela literatura e pelo ato de escrever, o que nos contagia e estimula a querer seguir o seu caminho. Sua vasta memória literária nos brinda com inúmeras citações que ilustram seus pontos de vista de forma discreta e gentil. "Você provavelmente já sabe que..." ou "Você certamente se lembra daquela passagem em que..." são fórmulas utilizadas pelo autor para lançar idéias sem fazer o leitor parecer diminuído por desconhecê-las.

Alçado à categoria de grande autor latino-americano por sua bela obra de ficção, Mario Vargas Llosa conseguiu com "Cartas a um Jovem Escritor" sair da sombra dos seus personagens e dialogar diretamente com seus leitores, ávidos por conhecer seus métodos e técnicas. Ótimo livro para os admiradores do escritor mas especialmente indicado para os escritores em potencial que se encontram adormecidos na forma de leitores.

Tuesday, July 04, 2006

Sobre os Ombros de Gigantes


Sobre os Ombros de Gigantes
Alexandre Cherman
Jorge Zahar Editor - 2004

Por maior que seja a grandeza de um cientista, no imaginário popular ele acaba sempre reduzido a uma ou duas associações, geralmente de fundo anedótico. Albert Einstein, por exemplo, é associado imediatamente a três símbolos: a notória foto com a língua para fora, E=mc2 e a resposta que deu a um repórter quando perguntado sobre a importância da probabilidade na recém criada mecânica quântica - "Deus não joga dados!". Com relação a Isaac Newton a situação não é muito diferente. Há a bucólica (e provavelmente lendária) história da maçã caindo em sua cabeça enquanto lia um livro sentado à sombra de uma árvore, a fórmula F=ma e a frase com que justificava, modestamente, o seu sucesso: "Se enxerguei mais longe é porque me apoiei sobre os ombros de gigantes".

Não sabemos ao certo se Newton era dado a chistes porém pelo menos um autor levantou a hipótese de que talvez essa frase encerre uma disfarçada referência a Robert Hooke, seu eterno desafeto e possuidor de modesta estatura. De qualquer modo, a frase é emblemática do lento e gradual avanço da ciência. Cada cientista, por mais brilhante que seja, depende sempre do trabalho de seus antecessores. Assim como todos os seres humanos atualmente vivos descendem de um punhado de pessoas que viveram há milhares de anos, também as teorias científicas possuem uma longa linhagem que alcança a mais remota antigüidade. Se hoje conhecemos os quarks e teorizamos sobre as supercordas, devemos isso em parte a Demócrito que, no século IV aC, plantou a semente da teoria atômica. Cada geração de cientistas tem os ombros dos gigantes que os antecederam para se apoiar e, por sua vez, eles próprios servirão de apoio para as gerações futuras.

Neste seu segundo livro, Alexandre Cherman procura alinhavar as principais idéias da Física desde Tales de Mileto e Pitágoras até as mais recentes teorias de unificação. Nenhum relato dessa envergadura pode ser completo e isento. Por isso Cherman honestamente acrescenta ao livro o sub-título de "Uma História da Física". Trata-se de uma visão pessoal sobre a evolução das idéias e dos complexos relacionaments entre filósofos, matemáticos e cientistas que desde a antiguidade vêm tentando explicar o mundo ao nosso redor. A abordagem é didática e voltada para para um público leigo com escolaridade de nível médio. Contudo, nem por isso Cherman se acanha e foge do uso da matemática. As famosas equações de Maxwell para os campos elétrico e magnético bem como a equação tensorial de Einstein que relaciona a curvatura do espaço-tempo com a matéria estão lá em toda a sua glória e o autor faz um belo trabalho para explicá-las em linhas gerais.

Pode parecer que uma história da Física deva ser um relato totalmente impessoal e objetivo. Entretanto, a linguagem utilizada pelo autor bem como a escolha de quais cientistas e descobertas são os mais representativos dão um toque particular à história. Dos primórdios da humanidade até a grande síntese da mecânica realizada por Newton, Cherman conduz a narrativa pelos seus principais agentes: Tales, Aristóteles, Ptolomeu, Copérnico, Galileu e Kepler. A partir de Newton o livro se orienta pelas principais teorias de cada época: a tentativa de se entender a natureza da luz, o eletromagnetismo, a relatividade, a mecânica estatística, a mecânica quântica e, finalmente, as modernas teorias que pretendem quantizar a gravitação e chegar à unificação de todas a forças conhecidas. Embora nessa segunda parte o eixo tenda mais para as teorias do que para os cientistas, o livro é rico em retratos biográficos. Em suas quase 200 páginas estão presentes não apenas os gigantes que emprestaram seus ombros para a grande escalada da Física, mas também inúmeros cientistas de menor brilho mas cujo trabalho foi inestimável para a pavimentação desse longo caminho. Lamentavelmente o livro não possui um índice onomástico, que seria tão útil numa obra dessa natureza.

Alexandre Cherman usou uma linguagem correta e simples mas sem apelar a coloquialismos exagerados. Com exceção do capítulo 1, em que dá um relato bem pessoal do que seja a Física, o restante do livro é conduzido de maneira um pouco mais formal, num bom equilíbrio entre a frieza da 3a pessoa e a discreta presença do autor na 1a pessoa. Sua voz pode ser ouvida ainda aqui e ali, em certas intervenções humorísticas. Por exemplo, ao comentar o modelo atômico de Thomson, chamado de "pudim de passas": "...deve fazer sentido para o público inglês, acostumado a comer esse tipo de doce. Eu prefiro 'modelo do panetone'". Ou ainda ao explicar a eletrização de materiais por fricção: "Assim (os elétrons) continuam prisioneiros, embora num estado alterado (chamado, sem maldade alguma de 'estado excitado')". Complementam ainda o caráter didático do livro um grande número de "boxes" onde certos assuntos são tratados de modo ligeiramente mais técnico: os anéis de Newton, o teorema de Gauss, as equações de Maxwell, o condensado de Bose-Einstein, etc. Enfim, trata-se de um livro recomendado a um amplo espectro de pessoas que tenham interesse pela História da Ciência.

Como observação final, é curioso notar que um livro de título idêntico foi escrito por Stephen Hawking praticamente na mesma época que o de Alexandre Cherman. Em inglês, "On the Shoulders of Giants: The Great Works of Physics and Astronomy". Porém não se trata de outra história da física! Nesse livro Hawking apresenta ao leitor trechos das principais obras de Copérnico, Galileu, Kepler, Newton e Einstein. Para cada um dos "gigantes", Hawking faz um ensaio e reproduz textos originais. Isto só vem comprovar a genialidade da frase de Newton, que estimulou em dois autores maneiras diferentes de contar como a Física se desenvolve.

Friday, June 30, 2006

A Different Universe


A Different Universe
Robert B. Laughlin
Basic Books - 2005

Leitores de "O Universo Elegante" de Brian Greene estão familiarizados com os rumos que a física vem tomando nas últimas décadas. A crescente matematização do universo e a freqüente postulação de entidades abstratas num nível assombrosamente microscópico tornam as recentes teorias muito difíceis de serem testadas experimentalmente. Alguns cientistas começam a demonstrar um certo desconforto ao constatarem que, após quase duas décadas de intensas pesquisas, as diversas teorias de cordas não tenham sido capazes de produzir previsões observáveis. Na melhor das hipóteses conseguiram apenas se compatibilizar com fatos já conhecidos. As dimensões em questão são tão incrivelmente pequenas que não há qualquer expectativa de que possamos investigá-las, mesmo num futuro longínquo. A menos que métodos indiretos sejam inventados ou novas evidências encontradas, não será possível verificar se tais teorias realmente descrevem ou modelam a natureza. Nesse caso serão apenas invenções da mente humana e, de certa forma, serão tão verdadeiras como os antigos mitos de criação. Estaria então a ciência voltando às suas origens e se transmutando em filosofia?

O processo que nos guiou desde o átomo de Demócrito, passando pelos elétrons, prótons e nêutrons até os quarks e as cordas das teorias de hoje, chama-se reducionismo. É a crença segundo a qual, para se conhecer um objeto, é necessário conhecer primeiro os seus constituintes, isto é, reduzi-lo às suas partes. Esta é, sem dúvida, uma idéia muito poderosa e continuará sendo utilizada pelos diversos ramos da ciência. Entretanto, uma classe crescente de fenômenos vem demonstrando que propriedades complexas são, com freqüência, imprevisíveis a partir de seus constituintes primitivos. Os principais exemplos vêm da biologia mas, surpreendentemente, inúmeros exemplos existem também na física. Tais propriedades complexas são chamadas de emergentes, termo que procura exprimir a idéia de que, nesses casos, não há nada no conhecimento das partes que permita deduzir o todo. Em outras palavras, o todo é maior que a soma das partes.

A idéia central de "A Different Universe" é que os fenômenos emergentes estão em toda parte mas os cientistas, de um modo geral, não estão dando a devida atenção a eles. Muitos físicos propalam a idéia de que estamos prestes a completar uma "teoria de tudo" (TOE - Theory of Everything) e que, quando isso acontecer, seremos capazes de, em tese, explicar qualquer fenômeno da Natureza. De certa forma, estaríamos então próximos do fim da Ciência. Robert Laughlin pensa diferente. Ganhador do prêmio Nobel de física em 1998 (pelo seu trabalho sobre o efeito Hall fracionário), Laughlin tem a segurança e a serenidade de quem esteve lá e venceu. Suas pesquisas estão ligadas aos estados da matéria e as transições de fases. É um campo onde a teoria anda muito próxima da experimentação, sendo esta, portanto, a origem do seu desconforto com as novas teorias, tão distantes dos laboratórios. Laughlin procura passar a idéia de que ainda há muita, mas muita coisa mesmo a ser explicada. E, tendo alcançado o olimpo da física, Laughlin sente-se à vontade para assumir uma postura um tanto dissidente em relação ao mainstream acadêmico ao sugerir que quase tudo, senão tudo o que falta, terá uma explicação emergente e não reducionista.

Que Robert Laughlin é um cientista competente, com idéias originais e um extenso lastro de pesquisa não há dúvida. Contudo, saber se é um bom escritor é algo completamente distinto. "A Different Universe" peca principalmente por falta de coesão. Embora a idéia de fenômenos emergentes seja a coluna dorsal do livro, falta alinhavar melhor os capítulos, dando-lhes mais continuidade. O mesmo acontece com as histórias paralelas, inseridas a título de ilustração, que muitas vezes parecem perdidas e desconectadas do texto principal. Ser cientista requer uma vida de dedicação e talento, mas escrever um livro requer também certas habilidades. Ser competente nas duas áreas é para poucos. Carl Sagan deixa saudades!

Sunday, March 26, 2006

O Mundo de Sofia


O Mundo de Sofia
Jostein Gaarder
Cia das Letras - 2002

"O Mundo de Sofia" foi um enorme sucesso de vendas nos anos 90. Apesar de já ter sido chamado, pejorativamente, de "Introdução à Filosofia para Meninas", o livro continua vendendo bem até hoje. O sub-título, "Romance da história da filosofia", talvez devesse ser qualificado com "filosofia ocidental", pois o pensamento oriental aparece apenas de raspão nas suas mais de 500 páginas. Esse pequeno lapso apenas repete o vício que nós, ocidentais, temos de considerar a História do Ocidente como sendo a História do Mundo, algo parecido como os americanos chamarem de "World Series" o seu campeonato nacional de baseball.

Isso, entretanto, não significa que o livro saia diminuído. Jostei Gaarder dá uma panorâmica nos principais pensadores ocidentais, desde Tales e Demócrito até Freud com direito a pinceladas sobre os pós-modernistas. A seqüência de nomes é mais ou menos canônica e pode ser encontrada em outras histórias da filosofia. Dos gregos Sócrates, Platão e Aristóteles aos naturalistas modernos Marx, Darwin e Freud, dos racionalistas Descartes, Spinoza e Leibniz aos empíricos Lock e Hume, todos os suspeitos de sempre são apresentados. Na maioria das vezes a ênfase é em algum pensador expressivo mas, em outros casos, o movimento como um todo ou o espírito da época também são abordados de modo esquemático. Ao visitarmos Aristóteles, Kant e Darwin gastamos com eles o tempo que merecem mas passamos mais rapidamente pelo Iluministmo, pelo Barroco e pelo Romantismo.

Se a abrangência de pensadores é grande e o tratamento didático dado às diversas escolas é correto, estes não são, no entanto, os principais méritos de Jostein Gaarder. Antes dele outros já se haviam notabilizado com boas popularizações da história da filosofia, como é o caso de Will Durant e o seu clássico "The Story of Philosophy". Sem dúvida, o ponto forte do Mundo de Sofia é a história paralela que se desenvolve em torno de uma jovem norueguesa que está para completar 15 anos. Assim, enquanto a maioria das histórias da filosofia dirigidas ao público adulto segue mais ou menos o mesmo projeto, o livro de Jostein Gaarder procura entrar no mundo dos jovens e, através de perguntas simples, mostrar que o questionamento filosófico é uma característica inata ao ser humano. A partir daí procura revelar como as melhores mentes do hemisfério ocidental se esforçaram para responder às grandes questões.

A história começa com Sofia recebendo cartas contendo apenas uma pergunta. "Quem é você?" ou "De onde vem o mundo?". Estas cartas, que misteriosamente aparecem em sua caixa de correio, não contêm remetente nem qualquer outra pista sobre sua origem. Em seguida, além delas, aparecem também cartões postais, desta vez endereçados a Hilde Knag, que Sofia não conhece mas a quem, supostamente, deveria encaminhá-los. Aos poucos as cartas são substituídas por envelopes maiores contendo lições datilografadas sobre filosofia. À medida que vamos tomando conhecimento dos gregos e seu modo de pensar, vai crescendo o mistério sobre a origem das cartas e dos postais bem como sobre a identidade de Hilde. Esse formato poderia ser desenvolvido até o fim do livro onde então se resolveria o mistério. Contudo, Jostein Gaarder é mais criativo e guarda muitas surpresas para os leitores. Com um certo receio de revelar mais do que o necessário sobre a trama, podemos dizer que o autor lança mão do recurso da narrativa dentro da narrativa, o que acrescenta um elemento de desconforto à questão "O que é a realidade?". A partir daqui o livro se desenvolve em três planos, Sofia, Hilde e as lições de filosofia propriamente ditas, todos se entrelaçando e criando tensões entre si. Essas tensões e os mistérios são resolvidos habilmente pelo autor, que criou um final mais poético do que filosófico.

A idéia geral do formato de "O Mundo de Sofia", a de contar a história da filosofia entrelaçada com uma história de fundo juvenil, parece ser muito eficaz e gerou seguidores. "A Viagem de Théo", de Catherine Clement, conta a história das religiões também alcançou um relativo sucesso. Já "O Teorema do Papagaio", de Denis Guedj, tenta fazer algo semelhante com a matemática, mas não vendeu tanto. Sem entrarmos no mérito de cada escritor, parece que esses resultados de venda estão bem de acordo com a percepção que se tem dos temas. A filosofia, por ser de interesse universal viria de fato em primeiro lugar, seguida de questões religiosas e místicas, tendo a matemática um discreto último lugar. Embora saibamos que a matemática, assim como todo o pensamento científico, dê margem para interessantes questões filosóficas.

Curiosamente, parece que o público alvo que o autor tinha em mente, justamente jovens por volta dos 15 anos, não é exatamente o público comprador brasileiro. Não se sabe se os 15 anos que nos separam da publicação original do livro têm alguma importância na mudança da mentalidade juvenil ou se os jovens noruegueses são diferentes dos tropicais mas o fato é que relativamente poucos jovens se aventuram por conta própria na leitura deste livro. Seja pelo grande número de páginas, seja pelo tema, considerado muito abstrato, o Mundo de Sofia, mesmo quando recebido de presente, acaba numa estante sem nunca ter sido aberto ou apenas com os primeiros capítulos lidos. São adultos, de variadas faixas etárias, que geralmente compram, lêem e fazem o sucesso do livro. Este fenômeno parece colocar "O Mundo de Sofia" ao lado de outros livros de grande popularidade, como "O Pequeno Príncipe" e "Fernão Capelo Gaivota", que discorrem sobre temas importantes mas, por usarem uma linguagem e uma abordagem juvenis, carregam o estigma de serem menores e não indicados para pessoas cultas. Muitos adultos sisudos serão incapazes de admitir que gostaram ou sequer que leram algum desses livros! A bem da verdade, o conteúdo de "O Mundo de Sofia" é bastante mais profundo do que o dos outros citados, o que, de certa forma, serve para nos libertar do sentimento de culpa e nos permitir dizer ao final da leitura: gostei!