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Saturday, September 02, 2006

Auto-de-fé


Auto-de-fé
Elias Canetti
Cosac Naify - 2004

Elias Canetti é principalmente conhecido por sua trilogia autobiográfica: "A Língua Absolvida", "Uma Luz em meu Ouvido" e "O Jogo dos Olhos". A leitura desta interessante narrativa, que abrange o período de 1905 a 1937, é agradável e revela o paradoxo de um humanista entusiasmado porém descrente da humanidade. Interessado não apenas na literatura, dedicou anos de pesquisa às massas populares, culminando na publicação do estudo "Massa e Poder" em 1960, que lhe granjeou enorme fama. Canetti possuía inúmeros talentos e escreveu peças teatrais, ensaios sobre literatura, história, antropologia e filosofia. Em 1981 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura pelo poder de suas idéias e pela admirável abrangência de seu pensamento.

Entretanto, poucas obras de ficção brotaram de sua pena, sendo "Auto-de-fé" seu único romance. Desde o seu aparecimento em 1935 até os dias de hoje, a leitura deste longo livro tem provocado duras críticas e quase sempre uma sensação de estranhamento. Especialmente os leitores de seus ensaios autobiográficos terão dificuldade em relacionar a imagem do intelectual perspicaz de "O Jogo dos Olhos" com Kien, o protagonista de "Auto-de-fé". Se os personagens desprezíveis e seus relacionamentos mesquinhos já provocavam desconforto na Europa do entre guerras, a nós, em outro hemisfério e no início do século XXI, causam ainda mais estranheza.

Em essência, "Auto-de-fé" conta a história do dr. Peter Kien, um erudito sinólogo que vive isolado do mundo em seu universo de estudos e livros e de como, ao fim e ao cabo, esse mundo que ele ignora o condena à morte numa fogueira da Inquisição. A narrativa é dividida em três partes. Na primeira, "Uma cabeça sem mundo", ficamos conhecendo Kien, a cabeça, o estereótipo do estudioso sisudo, possuidor de uma vasta biblioteca que mora sozinho em seu apartamento em Viena. Logo na abertura, quando Kien conversa com um inteligente menino de nove anos que se interessa por caracteres chineses, temos a impressão de que o personagem será o alter ego do autor, ele próprio um sábio e poliglota. Entretanto, rapidamente a ilusão se desfaz, ao percebermos a desconexão do personagem com o mundo real em razão de sua dedicação integral aos manuscritos da China antiga. Kien contrata uma governanta para ajudá-lo na lida doméstica e, devido à sua total ingenuidade e inabilidade no trato com as pessoas, acaba se casando com ela, o que se tornará o seu pior pesadelo. Sua esposa/governanta é descrita como o seu oposto. Inculta e tagarela, dedica-se apenas a tramar a extorsão da fortuna do marido, que acredita ser imensa, mas que, na verdade, já foi dilapidada ao longo dos anos para abastecer a imensa biblioteca. Esse tipo de situação sem dúvida se presta a alguma comicidade, mas no entanto, para Canetti o importante é a atmosfera de irrealidade, quase loucura dos personagens.

Expulso do próprio apartamento pela esposa, Kien encontra na segunda parte "O mundo sem cabeça". Aqui, guiado por um anão corcunda que passa a ser seu ajudante, Kien finalmente trava contato com o mundo real. Uma galeria de personagens mesquinhos, sórdidos ou simplesmente vazios cruza o seu caminho e, pouco a pouco, ele vai se transformando num farrapo humano, desprovido de vontade e ação. A terceira parte, "Um mundo na cabeça" promete a salvação de Kien através da síntese ou do equilíbrio entre o mundo mental e o mundo físico. O salvador é seu irmão, um renomado psiquiatra em Paris que, apesar de viver no mundo psíquico de seus pacientes, é também um homem prático que sabe lidar com as dificuldades e armadilhas da vida real. As pessoas que, para o professor sinólogo se mostram como déspotas e opressoras, para o psiquiatra são como os pacientes com os quais está acostumado a lidar no seu manicômio. Assim, resolvendo um problema após o outro, o irmão consegue devolver a Kien seu apartamento, sua liberdade de trabalho, enfim, sua dignidade e pode voltar a Paris com a sensação do dever cumprido. Entretanto, o sucesso é apenas superficial e Kien não consegue escapar ao seu destino na fogueira.

"Auto-de-fé" é um livro denso, repleto de significados, que uma leitura rápida não é capaz de revelar. Canetti escreve com um estilo limpo e preciso mas isso não ajuda a leitura. Vencer suas mais de quinhentas páginas não é tarefa fácil e requer determinação. Contudo, ao fechar o livro sentimos que estamos um tanto mais próximos de perceber as diversas possibilidades da consciência humana e de como é tênue aquela fronteira entre loucura e sanidade. Caso Canetti tivesse escrito uma quarta parte para o livro, ela bem poderia se chamar "Muitos mundos na cabeça".

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