Leio, logo existo!

Monday, February 27, 2006

O Inquisidor


O Inquisidor
Valeiro Evangelisti
Conrad Editora

Dentre os escritores italianos contemporâneos, conhecia apenas Umberto Eco e Italo Calvino, dois nomes que, se não são exatamente populares, têm um público fiel no Brasil. Agora, talvez no rastro do sucesso do "Código Da Vinci" e de outros "thrillers" de fundo histórico, o mercado editorial nos traz dois novos italianos com livros passados no trecento: Valeiro Evangelisti com "O Inqusidor" e Giulio Leoni com "Os Crimes do Mosaico". Sobre este último teremos outra ocasião para comentar seu romance de estréia. Hoje gostaria de me deter em Evangelisti.

O livro de Valerio Evangelisti conta não uma mas três estórias paralelas que pouco ou nada têm em comum e apenas se entrelaçam no capítulo final. Embora as estórias caminhem paralelamente, a que tem como protagonista o inquisidor-geral do reino de Aragão, o padre dominicano Nicolau Eymerich, é a espinha dorsal do livro. As duas outras são meros apêndices que complementam, de pontos de vista distantes no espaço e no tempo, o enredo principal. Na verdade, penso mesmo que o livro ficaria melhor apenas com a estória que lhe dá título.

O ponto chave do livro é, sem dúvida, a capacidade do imaginário coletivo em engendrar mitos ou fatos concretos e observáveis. Se estamos falando de mitos podemos ter uma estória de cunho filosófico ou meramente histórico. Se pretendemos que a força da mente coletiva dê origem a aparições reais, poderemos ainda seguir pelo reino da fantasia. Não temos problema, por exemplo, em aceitar as impossibilidades físicas de "Alice no País das Maravilhas" ou a magia do "Senhor dos Anéis". Nesses casos sabemos que saímos do domínio do real e passamos ao da imaginação e, portanto, relaxamos nosso senso de plausibilidade. Existem inúmeras estórias sobre fenômenos mentais que se encaixam nesta categoria.

Evangelisti, no entanto, preferiu um caminho mais difícil ao tentar dar fundamentos científicos às suas idéias sobre a força de mentalização. O problema, evidentemente, é que sua tentativa é muito pouco convincente, em grande parte por ser uma tese absolutamente remota e em menor parte por tratar o assunto de forma superficial e pseudo-científica. Assim, a trama paralela do Dr. Frullifer tentando convencer o departamento de física da Universidade do Texas de suas teorias constitui a parte mais fraca do livro.

De forma análoga, a segunda trama paralela, que relata a viagem da nave espacial Malpertuis num futuro próximo e operando segundo a teoria do Dr. Frullifer, é, na melhor das hipóteses, canhestra. A seu favor podem-se lembrar as tentativas de discutir alguns temas religiosos e a manipulação das massas. Porém, como a estória é curta e os personagens pouco desenvolvidos, ficamos novamente na superficialidade.

Resta-nos, então, a estória principal, onde Eymerich tenta elucidar os estranhos acontecimentos que rondam a corte de Zaragoza por volta do ano de 1350. Este personagem, baseado num padre real de mesmo nome, nos dá uma pequena mostra do funcionamento da Inquisição naquela parte da Espanha. Por força do cargo que ocupa, Eymerich tem acesso ao palácio real, ao magistrado local, chamado de "justicia" da corte e a diferentes segmentos da Igreja. Conhece como ninguém as intrigas entre a nobreza e o clero e as utiliza em proveito próprio para atingir seus objetivos. É em Eymerich, portanto, personagem forte e determinado, talvez em demasia, que temos o melhor do livro. Sua enorme fé guia a todo momento sua luta contra o obscurantismo, as bruxas e os heresias. A ótima trama e os bons personagens auxiliares poderiam ter sido melhor aproveitados e as duas outras tramas paralelas dispensadas. Imagino que a resolução dos enigmas e sua explicação poderiam terminar de forma ambígua, deixando para o leitor dúvidas ou alternativas. Ao lançar mão de expedientes do domínio da ficção científica, creio que ficamos com um livro inferior ao que poderia ter sido.

Friday, February 10, 2006

Os Livros e os Dias

Recentemente li "Os Livros e os Dias - Um Ano de Leituras Prazerosas" de Alberto Manguel e fiquei encantado com a idéia do autor, um verdadeiro ovo de Colombo. Ler um livro por mês e comentá-lo num diário, misturando impressões, crítica literária e acontecimentos do cotidiano. Melhor seria, talvez, um livro por semana, pois assim haveria espaço para mais variedade. Porém, como ganhar a vida e ainda achar tempo para ler e comentar um livro por semana? E por que ficar preso ao período de uma semana ou de um mês? Afinal, alguns livros se deixam ler mais rapidamente que outros e alguns nos tomam muito mais tempo do que deveriam.

De qualquer forma, quis imediatamente aproveitar a idéia e adaptá-la ao formato da web. Não tenho como publicar um livro, mas um blog está ao alcance de qualquer pessoa com acesso à Internet. O título do livro me pareceu a escolha perfeita para batizá-lo. Na verdade creio que este seja um daqueles raros casos em que a tradução livre de um título ficou melhor que o original. Em inglês o livro se chama "A Reading Diary - A Year of Favourite Books", que é bem claro ao especificar a intenção da obra, mas não tem o encanto do título em português. Afinal, "Os Livros e os Dias" nos faz lembrar de "Os Prazeres e os Dias", livro de estréia de Marcel Proust que, por sua vez, tem sua gênese em "Os Trabalhos e os Dias" de Hesíodo! Que enorme felicidade teve o tradutor na escolha deste título, colocando assim em perspectiva três escritores tão distantes!

Obviamente "Os Livros e os Dias" era o nome certo para o blog que eu desejava criar (este que a gentil leitora tem na sua tela). Entretanto, não me agradava a idéia de copiar um título existente e muito menos de parecer estar querendo me comparar a Hesíodo, Proust ou Manguel! Não sou escritor, sou blogueiro iniciante! Assim tive que pensar em alternativas. "Os Livros e os Blogs" foi a tentativa óbvia mas me pareceu um pastiche mal feito, de maneira que abandonei a idéia de parodiar o título do livro de Manguel e parti para outras formas. Tentei algo em inglês: "A-Book-a-Month" ou o mais arrojado "A-Book-a-Week", mas também não gostei. Levei cerca de uma semana procurando outros títulos até chegar a "Leio, logo existo". Certo, trata-se também de uma paródia infame, mas para mim tinha um gostinho especial pois me fazia lembrar de uma bela frase de Paulo Rónai: "Mais que viver a vida, li a vida".

Entendo que o título escolhido talvez dê a entender que se trate de um blog sobre livros de filosofia. Porém, numa interpretação um pouco mais ampla, percebemos que ele tenta transmitir aquela centelha vital que às vezes sentimos ao ler um livro revelador. E também a importância que certos livros têm para nós, explicando a vida e nos ajudando a vivê-la. Esta é, portanto, a matéria deste blog. Comentários e impressões de livros que vou lendo, não um por semana, mas na medida que as outras atividades permitem. Não sou leitor erudito, ao contrário, sou eclético, com um amplo espectro de gostos. Assim, não estranhemos se depois de Dante Alighieri vier Dan Brown pois nem só de clássicos vive o leitor moderno!

Acima de tudo, o objetivo de se fazer um blog é explorar a interatividade. Criar a possibilidade de outras pessoas poderem enviar suas prórpias impressões e constatar que do cruzamento dessas diferentes visões de mundo podem surgir novas idéias. Espero, portanto, que os comentários registrados aqui suscitem outros e mais outros e que eles dialoguem calorosamente entre si.

Até breve!