O Inquisidor

O Inquisidor
Valeiro Evangelisti
Conrad Editora
Dentre os escritores italianos contemporâneos, conhecia apenas Umberto Eco e Italo Calvino, dois nomes que, se não são exatamente populares, têm um público fiel no Brasil. Agora, talvez no rastro do sucesso do "Código Da Vinci" e de outros "thrillers" de fundo histórico, o mercado editorial nos traz dois novos italianos com livros passados no trecento: Valeiro Evangelisti com "O Inqusidor" e Giulio Leoni com "Os Crimes do Mosaico". Sobre este último teremos outra ocasião para comentar seu romance de estréia. Hoje gostaria de me deter em Evangelisti.
O livro de Valerio Evangelisti conta não uma mas três estórias paralelas que pouco ou nada têm em comum e apenas se entrelaçam no capítulo final. Embora as estórias caminhem paralelamente, a que tem como protagonista o inquisidor-geral do reino de Aragão, o padre dominicano Nicolau Eymerich, é a espinha dorsal do livro. As duas outras são meros apêndices que complementam, de pontos de vista distantes no espaço e no tempo, o enredo principal. Na verdade, penso mesmo que o livro ficaria melhor apenas com a estória que lhe dá título.
O ponto chave do livro é, sem dúvida, a capacidade do imaginário coletivo em engendrar mitos ou fatos concretos e observáveis. Se estamos falando de mitos podemos ter uma estória de cunho filosófico ou meramente histórico. Se pretendemos que a força da mente coletiva dê origem a aparições reais, poderemos ainda seguir pelo reino da fantasia. Não temos problema, por exemplo, em aceitar as impossibilidades físicas de "Alice no País das Maravilhas" ou a magia do "Senhor dos Anéis". Nesses casos sabemos que saímos do domínio do real e passamos ao da imaginação e, portanto, relaxamos nosso senso de plausibilidade. Existem inúmeras estórias sobre fenômenos mentais que se encaixam nesta categoria.
Evangelisti, no entanto, preferiu um caminho mais difícil ao tentar dar fundamentos científicos às suas idéias sobre a força de mentalização. O problema, evidentemente, é que sua tentativa é muito pouco convincente, em grande parte por ser uma tese absolutamente remota e em menor parte por tratar o assunto de forma superficial e pseudo-científica. Assim, a trama paralela do Dr. Frullifer tentando convencer o departamento de física da Universidade do Texas de suas teorias constitui a parte mais fraca do livro.
De forma análoga, a segunda trama paralela, que relata a viagem da nave espacial Malpertuis num futuro próximo e operando segundo a teoria do Dr. Frullifer, é, na melhor das hipóteses, canhestra. A seu favor podem-se lembrar as tentativas de discutir alguns temas religiosos e a manipulação das massas. Porém, como a estória é curta e os personagens pouco desenvolvidos, ficamos novamente na superficialidade.
Resta-nos, então, a estória principal, onde Eymerich tenta elucidar os estranhos acontecimentos que rondam a corte de Zaragoza por volta do ano de 1350. Este personagem, baseado num padre real de mesmo nome, nos dá uma pequena mostra do funcionamento da Inquisição naquela parte da Espanha. Por força do cargo que ocupa, Eymerich tem acesso ao palácio real, ao magistrado local, chamado de "justicia" da corte e a diferentes segmentos da Igreja. Conhece como ninguém as intrigas entre a nobreza e o clero e as utiliza em proveito próprio para atingir seus objetivos. É em Eymerich, portanto, personagem forte e determinado, talvez em demasia, que temos o melhor do livro. Sua enorme fé guia a todo momento sua luta contra o obscurantismo, as bruxas e os heresias. A ótima trama e os bons personagens auxiliares poderiam ter sido melhor aproveitados e as duas outras tramas paralelas dispensadas. Imagino que a resolução dos enigmas e sua explicação poderiam terminar de forma ambígua, deixando para o leitor dúvidas ou alternativas. Ao lançar mão de expedientes do domínio da ficção científica, creio que ficamos com um livro inferior ao que poderia ter sido.
