A Different Universe

A Different Universe
Robert B. Laughlin
Basic Books - 2005
Leitores de "O Universo Elegante" de Brian Greene estão familiarizados com os rumos que a física vem tomando nas últimas décadas. A crescente matematização do universo e a freqüente postulação de entidades abstratas num nível assombrosamente microscópico tornam as recentes teorias muito difíceis de serem testadas experimentalmente. Alguns cientistas começam a demonstrar um certo desconforto ao constatarem que, após quase duas décadas de intensas pesquisas, as diversas teorias de cordas não tenham sido capazes de produzir previsões observáveis. Na melhor das hipóteses conseguiram apenas se compatibilizar com fatos já conhecidos. As dimensões em questão são tão incrivelmente pequenas que não há qualquer expectativa de que possamos investigá-las, mesmo num futuro longínquo. A menos que métodos indiretos sejam inventados ou novas evidências encontradas, não será possível verificar se tais teorias realmente descrevem ou modelam a natureza. Nesse caso serão apenas invenções da mente humana e, de certa forma, serão tão verdadeiras como os antigos mitos de criação. Estaria então a ciência voltando às suas origens e se transmutando em filosofia?
O processo que nos guiou desde o átomo de Demócrito, passando pelos elétrons, prótons e nêutrons até os quarks e as cordas das teorias de hoje, chama-se reducionismo. É a crença segundo a qual, para se conhecer um objeto, é necessário conhecer primeiro os seus constituintes, isto é, reduzi-lo às suas partes. Esta é, sem dúvida, uma idéia muito poderosa e continuará sendo utilizada pelos diversos ramos da ciência. Entretanto, uma classe crescente de fenômenos vem demonstrando que propriedades complexas são, com freqüência, imprevisíveis a partir de seus constituintes primitivos. Os principais exemplos vêm da biologia mas, surpreendentemente, inúmeros exemplos existem também na física. Tais propriedades complexas são chamadas de emergentes, termo que procura exprimir a idéia de que, nesses casos, não há nada no conhecimento das partes que permita deduzir o todo. Em outras palavras, o todo é maior que a soma das partes.
A idéia central de "A Different Universe" é que os fenômenos emergentes estão em toda parte mas os cientistas, de um modo geral, não estão dando a devida atenção a eles. Muitos físicos propalam a idéia de que estamos prestes a completar uma "teoria de tudo" (TOE - Theory of Everything) e que, quando isso acontecer, seremos capazes de, em tese, explicar qualquer fenômeno da Natureza. De certa forma, estaríamos então próximos do fim da Ciência. Robert Laughlin pensa diferente. Ganhador do prêmio Nobel de física em 1998 (pelo seu trabalho sobre o efeito Hall fracionário), Laughlin tem a segurança e a serenidade de quem esteve lá e venceu. Suas pesquisas estão ligadas aos estados da matéria e as transições de fases. É um campo onde a teoria anda muito próxima da experimentação, sendo esta, portanto, a origem do seu desconforto com as novas teorias, tão distantes dos laboratórios. Laughlin procura passar a idéia de que ainda há muita, mas muita coisa mesmo a ser explicada. E, tendo alcançado o olimpo da física, Laughlin sente-se à vontade para assumir uma postura um tanto dissidente em relação ao mainstream acadêmico ao sugerir que quase tudo, senão tudo o que falta, terá uma explicação emergente e não reducionista.
Que Robert Laughlin é um cientista competente, com idéias originais e um extenso lastro de pesquisa não há dúvida. Contudo, saber se é um bom escritor é algo completamente distinto. "A Different Universe" peca principalmente por falta de coesão. Embora a idéia de fenômenos emergentes seja a coluna dorsal do livro, falta alinhavar melhor os capítulos, dando-lhes mais continuidade. O mesmo acontece com as histórias paralelas, inseridas a título de ilustração, que muitas vezes parecem perdidas e desconectadas do texto principal. Ser cientista requer uma vida de dedicação e talento, mas escrever um livro requer também certas habilidades. Ser competente nas duas áreas é para poucos. Carl Sagan deixa saudades!
