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Tuesday, July 04, 2006

Sobre os Ombros de Gigantes


Sobre os Ombros de Gigantes
Alexandre Cherman
Jorge Zahar Editor - 2004

Por maior que seja a grandeza de um cientista, no imaginário popular ele acaba sempre reduzido a uma ou duas associações, geralmente de fundo anedótico. Albert Einstein, por exemplo, é associado imediatamente a três símbolos: a notória foto com a língua para fora, E=mc2 e a resposta que deu a um repórter quando perguntado sobre a importância da probabilidade na recém criada mecânica quântica - "Deus não joga dados!". Com relação a Isaac Newton a situação não é muito diferente. Há a bucólica (e provavelmente lendária) história da maçã caindo em sua cabeça enquanto lia um livro sentado à sombra de uma árvore, a fórmula F=ma e a frase com que justificava, modestamente, o seu sucesso: "Se enxerguei mais longe é porque me apoiei sobre os ombros de gigantes".

Não sabemos ao certo se Newton era dado a chistes porém pelo menos um autor levantou a hipótese de que talvez essa frase encerre uma disfarçada referência a Robert Hooke, seu eterno desafeto e possuidor de modesta estatura. De qualquer modo, a frase é emblemática do lento e gradual avanço da ciência. Cada cientista, por mais brilhante que seja, depende sempre do trabalho de seus antecessores. Assim como todos os seres humanos atualmente vivos descendem de um punhado de pessoas que viveram há milhares de anos, também as teorias científicas possuem uma longa linhagem que alcança a mais remota antigüidade. Se hoje conhecemos os quarks e teorizamos sobre as supercordas, devemos isso em parte a Demócrito que, no século IV aC, plantou a semente da teoria atômica. Cada geração de cientistas tem os ombros dos gigantes que os antecederam para se apoiar e, por sua vez, eles próprios servirão de apoio para as gerações futuras.

Neste seu segundo livro, Alexandre Cherman procura alinhavar as principais idéias da Física desde Tales de Mileto e Pitágoras até as mais recentes teorias de unificação. Nenhum relato dessa envergadura pode ser completo e isento. Por isso Cherman honestamente acrescenta ao livro o sub-título de "Uma História da Física". Trata-se de uma visão pessoal sobre a evolução das idéias e dos complexos relacionaments entre filósofos, matemáticos e cientistas que desde a antiguidade vêm tentando explicar o mundo ao nosso redor. A abordagem é didática e voltada para para um público leigo com escolaridade de nível médio. Contudo, nem por isso Cherman se acanha e foge do uso da matemática. As famosas equações de Maxwell para os campos elétrico e magnético bem como a equação tensorial de Einstein que relaciona a curvatura do espaço-tempo com a matéria estão lá em toda a sua glória e o autor faz um belo trabalho para explicá-las em linhas gerais.

Pode parecer que uma história da Física deva ser um relato totalmente impessoal e objetivo. Entretanto, a linguagem utilizada pelo autor bem como a escolha de quais cientistas e descobertas são os mais representativos dão um toque particular à história. Dos primórdios da humanidade até a grande síntese da mecânica realizada por Newton, Cherman conduz a narrativa pelos seus principais agentes: Tales, Aristóteles, Ptolomeu, Copérnico, Galileu e Kepler. A partir de Newton o livro se orienta pelas principais teorias de cada época: a tentativa de se entender a natureza da luz, o eletromagnetismo, a relatividade, a mecânica estatística, a mecânica quântica e, finalmente, as modernas teorias que pretendem quantizar a gravitação e chegar à unificação de todas a forças conhecidas. Embora nessa segunda parte o eixo tenda mais para as teorias do que para os cientistas, o livro é rico em retratos biográficos. Em suas quase 200 páginas estão presentes não apenas os gigantes que emprestaram seus ombros para a grande escalada da Física, mas também inúmeros cientistas de menor brilho mas cujo trabalho foi inestimável para a pavimentação desse longo caminho. Lamentavelmente o livro não possui um índice onomástico, que seria tão útil numa obra dessa natureza.

Alexandre Cherman usou uma linguagem correta e simples mas sem apelar a coloquialismos exagerados. Com exceção do capítulo 1, em que dá um relato bem pessoal do que seja a Física, o restante do livro é conduzido de maneira um pouco mais formal, num bom equilíbrio entre a frieza da 3a pessoa e a discreta presença do autor na 1a pessoa. Sua voz pode ser ouvida ainda aqui e ali, em certas intervenções humorísticas. Por exemplo, ao comentar o modelo atômico de Thomson, chamado de "pudim de passas": "...deve fazer sentido para o público inglês, acostumado a comer esse tipo de doce. Eu prefiro 'modelo do panetone'". Ou ainda ao explicar a eletrização de materiais por fricção: "Assim (os elétrons) continuam prisioneiros, embora num estado alterado (chamado, sem maldade alguma de 'estado excitado')". Complementam ainda o caráter didático do livro um grande número de "boxes" onde certos assuntos são tratados de modo ligeiramente mais técnico: os anéis de Newton, o teorema de Gauss, as equações de Maxwell, o condensado de Bose-Einstein, etc. Enfim, trata-se de um livro recomendado a um amplo espectro de pessoas que tenham interesse pela História da Ciência.

Como observação final, é curioso notar que um livro de título idêntico foi escrito por Stephen Hawking praticamente na mesma época que o de Alexandre Cherman. Em inglês, "On the Shoulders of Giants: The Great Works of Physics and Astronomy". Porém não se trata de outra história da física! Nesse livro Hawking apresenta ao leitor trechos das principais obras de Copérnico, Galileu, Kepler, Newton e Einstein. Para cada um dos "gigantes", Hawking faz um ensaio e reproduz textos originais. Isto só vem comprovar a genialidade da frase de Newton, que estimulou em dois autores maneiras diferentes de contar como a Física se desenvolve.